sábado, 15 de março de 2014

Entenda a crise na Crimeia

Região ucraniana pró-Rússia virou alvo de disputa entre Kiev e Moscou.
Putin autorizou ação militar; Ocidente pede recuo e ameaça com sanções.

Grupo pró-Rússia sobre tanque soviético T-34 segura placa onde se lê 'Crimeia pela paz'  em frente ao Parlamento de Simferopol nesta sexta-feira (27). (Foto: Vasily Batanov/AFP)

 Crimeia se tornou o foco da atenção da diplomacia internacional nas últimas semanas com uma escalada militar russa e ucraniana na região. As tensões separatistas da região, de maioria russa, se tornaram mais acirradas com a deposição do presidente ucraniano Viktor Yanukovich – o que levou a Rússia a aprovar o envio de tropas para “normalizar” a situação.
A medida só piorou as relações entre Ucrânia e Rússia, gerando grande perigo para a região.
A seguir, saiba os detalhes sobre a crise na região.
O que é a Crimeia?
Como teve início a crise na região?
Qual o papel da Rússia na crise?
Qual o interesse russo na Crimeia?
Qual a reação do governo da Ucrânia?
Qual a reação dos países ocidentais
arte crimeia 05.04 (Foto: Arte/G1)
O que é a Crimeia?
A Crimeia é uma república autônoma da Ucrânia, localizada em uma península no Mar Negro. A região já pertenceu à Rússia, e foi anexada pela Ucrânia em 1954 – o então líder soviético Nikita Khrushchev, que era de origem ucraniana, deu a região como presente. Diferente do resto da Ucrânia, a maioria da população na região é de origem russa.
Como teve início a crise na região?
No final de 2013, o então presidente ucraniano Viktor Yanukovich desistiu de assinar um tratado de livre-comércio com a União Europeia, preferindo estreitar relações comerciais com a Rússia. A decisão deu origem a protestos massivos, que resultaram, em fevereiro, na destituição de Yanukovich, que fugiu para a Rússia.
Na Crimeia, de maioria russa, o parlamento local foi dominado por um comando pró-Rússia, que nomeou Sergei Axionov como premiê. Esse novo governo, considerado ilegal pela Ucrânia, aprovou sua adesão à Federação Russa e a realização de um referendo sobre o status da região no dia 16 de março. Posteriormente, o Parlamento se declarou independente da Ucrânia - sendo apoiado por russos e criticado por ucranianos.
Qual o papel da Rússia na crise?
Com a intensificação das tensões separatistas, o Parlamento russo aprovou, a pedido do presidente Vladimir Putin, o envio de tropas à Crimeia para “normalizar” a situação.
Tropas sem identificação, mas claramente russas – algumas em veículos com placas registradas na Rússia – tomaram a Crimeia, dominando bases militares e aeroportos. A Rússia justificou o movimento dizendo se reservar o direito de proteger seus interesses e os de seus cidadãos em casos de violência na Ucrânia e na região da Crimeia.
A escalada militar fez com que diversos oficiais do exército ucraniano se juntassem ao governo local pró-russo. Outros abandonaram seus postos. No dia 4 de março, o novo governo da Crimeia anunciou que assumiu o controle da península, e deu um ultimato para que os últimos oficiais leais à Ucrânia se rendessem.
Segundo a Ucrânia, mais de 30 mil soldados russos já foram enviados à região. Os Estados Unidos estimam o efetivo russo na região em 20 mil militares. A Rússia nega ter efetivo militar na região superior ao de seu posto fixo em Sebastopol.
Qual o interesse russo na Crimeia?
Para muitos russos, a Crimeia e sua "Cidade Heroica" de Sebastopol, da era soviética, sitiada pelos invasores nazistas, têm uma ressonância emocional muito forte, por já ter sido parte do país e ainda ter a maioria de sua população de origem russa.
A península fica em uma área estratégica do Mar Negro, muito próxima do sudoeste da Rússia. A maior parte da frota russa no Mar Negro está na Crimeia, com um quartel-general na cidade ucraniana de Sebastopol.
Para a Ucrânia, independente da Rússia desde o colapso da União Soviética em 1991 e em meio a uma crise econômica, a perda da Crimeia seria um enorme golpe.
Qual a reação do governo da Ucrânia?
O novo governo ucraniano, pró-União Europeia, criticou os movimentos separatistas e classificou a aprovação de intervenção militar russa como uma declaração de guerra. Logo em seguida, o governo convocou todas suas reservas militares para reagir a um possível ataque russo.
O país também pediu apoio do Conselho de Segurança da ONU para frear a crise na península e defender sua integridade territorial.
Para o governo da Ucrânia, o Parlamento da Crimeia é ilegal e não tem legitimidade para declarar independência, marcar o referendo e decidir pela adesão à Rússia.
Qual a reação dos países ocidentais?
Os Estados Unidos e outros países ocidentais exigem que a Rússia recuasse suas tropas na Crimeia. Os EUA também ameaçaram a Rússia com sanções, suspenderam as transações comerciais com o país e cancelaram um acordo de cooperação militar com Moscou.
Outros países do ocidente pressionaram a Rússia por uma saída diplomática. A escalada de tensão também levou a uma ruptura entre as grandes potências, com o G7 condenando a ação e cancelando uma reunião com o governo de Moscou.
A União europeia também disse que poderia impor sanções, sendo criticada por Moscou, que ameaçou uma retaliação.
Em meio à crise, a Comissão Europeia divulgou um plano de ajuda de pelo menos € 11 bilhões para a Ucrânia. Os EUA também anunciaram um pacote de assistência técnica e econômica ao país em uma demonstração de apoio ao novo governo, no valor de US$ 1 bilhão.
O que pode acontecer?
Analistas internacionais acreditam que a solução para o problema deve ocorrer por via diplomática.
A Ucrânia não é oficialmente membro da Otan – em 1997, o país assinou um acordo em que se tornou um aliado extra-Otan e membro não-permanente da organização. Por isso, analistas não acreditam que a Otan possa entrar em guerra com a Rússia pela Ucrânia.
Qualquer ação militar ocidental direta arriscaria uma guerra entre as superpotências nucleares. Relativamente pequena e com arsenal reduzido, as forças da Ucrânia poderiam agir, mas correriam o risco de incitar uma invasão russa muito mais ampla que poderia dominar o país.
A Rússia pode cortar o fornecimento de gás para a Europa, cujos gasodutos passam pela Ucrânia, e acredita-se que o país tenha capacidades de ataque cibernéticos sofisticados que poderiam ser usadas contra a Ucrânia ou o Ocidente.

Ucrânia diz que Rússia avança pelo leste e prepara invasão

Presidente em exercício da Ucrânia disse que há perigo real de invasão.
Região separatista ucraniana fará referendo de anexação à Rússia.


A Ucrânia acusou neste sábado (15) "agentes do Kremlin" de fomentarem violência e mortes em cidades de idioma russo no país e pediu que a população não se levante ante às provocações, que seus novos líderes temem que sejam usadas para justificar uma invasão mais profunda, depois da tomada da Crimeia.O presidente em exercício da Ucrânia, Oleksander Turchinov, em um discurso no Parlamento, referiu-se às três mortes nos últimos dois dias em Donetsk e Kharkiv e disse que há um "perigo real" de uma invasão de forças russas pela fronteira leste da Ucrânia.
Falando a membros do partido do presidente deposto, que era pró-Moscou, Turchinov disse: "Vocês e nós sabemos quem está organizando os protestos populares no leste da Ucrânia --são os agentes do Kremlin que estão organizando e patrocinando os protestos, que estão provocando as mortes das pessoas."
Dois homens, descritos pela polícia como manifestantes pró-Moscou, foram mortos a tiros em uma briga em Kharkiv na noite de sexta-feira. Um nacionalista ucraniano foi morto a facadas quando manifestantes pró-Rússiax e pró-Ucrânia entraram em confronto em Donetsk, na quinta-feira.
Turchinov encerrou a sessão parlamentar dizendo: "A situação é muito perigosa. Não estou exagerando. Há um risco real de ameaça de invasão do território da Ucrânia e nós iremos voltar a nos reunir na segunda-feira às 10h", conforme registro da imprensa local.
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Homem carrega a bandeira da Crimeia um dia antes do referendo em Simferopol, em um protesto pró-Rússia (Foto: Thomas Peter/Reuters)Homem carrega a bandeira da Crimeia um dia antes do referendo em Simferopol, em um protesto pró-Rússia (Foto: Thomas Peter/Reuters)
Referendo
Líderes pró-Rússia da Crimeia se preparavam neste sábado para um referendo que deve transferir o controle da península do Mar Negro da Ucrânia para Moscou, apesar da ameaça de sanções e as críticas por parte dos governos ocidentais.
O referendo, que o ocorrerá no domingo e é classificado como ilegal por Kiev, causou a pior crise entre Ocidente e Oriente depois do fim da Guerra Fria, e aumentou a tensão não apenas na Crimeia, mas também no leste da Ucrânia, onde duas pessoas morreram durante confrontos na sexta-feira.
As ruas da capital da Crimeia, Simferopol, estão calmas neste sábado, apesar da forte presença militar, anormal para uma cidade normalmente pacata.
O primeiro-ministro da Crimeia, Sergei Aksyonov, cuja eleição em uma sessão fechada no Parlamento nacional não é reconhecida por Kiev, afirmou que há segurança suficiente para garantir que a votação deste domingo ocorra calmamente.
"Acho que temos gente o suficiente: mais de 10 mil pessoas nas forças de autodefesa, mais de 5 mil em diferentes unidades do Ministério do Interior e os serviços de segurança da República da Crimeia", afirmou o premiê.
Em Kiev, o Parlamento ucraniano aprovou a dissolução da assembleia regional da Crimeia, que organizou o referendo e apoia a anexação à Rússia.
Um líder nacionalista ucraniano do Congresso em Kiev disse que a assembleia da Crimeia precisa ser punida para impedir que haja mais movimentos separatistas no leste ucraniano, que tem o russo como idioma majoritário.
Aksyonov e Moscou não reconhecem que tropas russas tomaram o controle da Crimeia, e afirmam que milhares de homens armados não identificados e visíveis na península pertencem a grupos de "autodefesa", criados para assegurar a estabilidade.
Mas os militares russos praticamente não esconderam a chegada de milhares de soldados, caminhões, veículos blindados e artilharia à Crimeia.
Homens mascarados que cercam as instalações militares ucranianas na Crimeia se identificaram como soldados russos.
Moscou paga para Kiev pelo uso do porto da cidade de Sebastopol, que serve como base para sua frota no Mar Negro. O acordo permite que a Rússia tenha até 25 mil soldados no local, mas não em território ucraniano.
O referendo ocorre após a queda do presidente pró-Moscou da Ucrânia, Viktor Yanukovich, no dia 22 de fevereiro, em meio a manifestações sobre a sua decisão de descartar um acordo com a Europa em prol de laços econômicos com a Rússia.
A maioria do eleitorado da Crimeia, formado por 1,5 milhão de pessoas, deve escolher se juntar à Rússia no referendo, refletindo a maioria étnica russa. Para muitos moradores, a escolha é tanto econômica quanto política.

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