quarta-feira, 13 de junho de 2012

Com renda de classe média, trabalhador diz que só faz 'o básico'

Há quase dois anos, Cleriston Rodrigues Dantas, de 24 anos, deixou a cidade de Tucano, no interior da Bahia, para trabalhar em São Paulo. Com a renda mensal de cerca de R$ 800 que recebe como auxiliar de limpeza, Cleriston faz parte da classe média brasileira, de acordo com os novos critérios do governo, divulgados pela Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE).

Estudo da pasta define como classe média no país famílias em que a renda por pessoa seja entre R$ 291 e R$ 1.019. Segundo o governo, esse universo representa 54% da população do país.

De acordo com o relatado por Dantas, contudo, seu salário só dá para fazer o básico. Dos R$ 800, R$ 350 vão para pagar sua parte no aluguel de R$ 1.000 de um imóvel que divide com o irmão e a cunhada na cidade de São Paulo. O resto vai para gastos com alimento, transporte, água e luz. Para o lazer, ele revela que "às vezes dá um jeitinho", como parcelar no cartão de crédito.

Se os R$ 800 já dão na risca, com R$ 291 ao mês, a faixa mínima por pessoa para se enquadrar na classe média, segundo o governo, Dantas afirma que não conseguiria viver na capital paulista. “Se fosse para eu trabalhar com esse salário aqui, eu ficava na Bahia”, revela. “Lá a gente vive de plantar feijão, milho, essas coisas. Eu nunca calculei quanto eu ganhava por mês lá, mas mais do que R$ 291 eu ganhava”, afirma, ressaltando, contudo, que os gastos no interior baiano eram menores, porque vivia na casa dos pais.


Para o economista André Braz, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), apesar de os quase R$ 300 parecerem muito pouco ao mês para viver nas cidades, é preciso levar em conta as diferenças regionais brasileiras na hora de avaliar os valores estipulados pelo governo. “Esses intervalos de renda, apesar de parecerem valores modestos quando a gente olha os custos de vida de centros urbanos, são uma definição estatística. O Brasil é um território cheio de diferenças”, avalia. “Às vezes, a condição de vida de quem ganha R$ 290 no interior do Nordeste é semelhante, equivalente a de quem ganha R$ 1.000 nos grandes centros urbanos.”

O Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) calcula, mensalmente, o preço para a compra da cesta básica em 17 capitais. De acordo com o resultado de abril deste ano, em São Paulo (a cesta mais cara), o preço foi, em média, de R$ 277,27. Na sequência, estão Porto Alegre (R$ 268,10), Manaus (R$ 267,19) e Vitória (R$ 262,14). Os menores valores foram encontrados em Aracaju (R$ 192,52), João Pessoa (R$ 216,95), Salvador (R$ 217,92) e Fortaleza (R$ 218,87) - veja a lista completa.



O aposentado Carlos Alberto da Conceição, de 73 anos, também se enquadra dentro do perfil da classe média anunciado pelo governo, mas afirma que a renda mensal não é suficiente para as necessidades básicas. Ele recebe cerca de R$ 600 e vive sozinho. Paga R$ 450 de aluguel, já incluindo as contas de água e luz. Os R$ 150 que sobram precisam ser divididos entre alimento e remédios – como a conta não fecha, complementa o resto com a ajuda que recebe de outras pessoas. Ele foi encontrado pela reportagem pedindo esmola na Avenida Paulista, em São Paulo.


Complemento da renda

Para o aposentado Manuel Antônio dos Santos, de 69 anos, os R$ 291 por pessoa numa família dariam apenas “para quebrar o galho”, levando em conta o custo de vida em São Paulo. “O aluguel é de R$ 350 para cima, só se for um casal que não precisa pagar aluguel (...). Se a pessoa pagar aluguel, aí complica.”

Santos também se enquadra como parte da classe média brasileira – recebe R$ 760 de aposentadoria e vive apenas com a mulher. Mesmo assim, o valor do benefício não é suficiente e ele trabalha como vendedor ambulante para complementar a renda. “Numa época boa consigo tirar até mais do que ganho na aposentadoria”, revela.


Para as auxiliares de limpeza Maria do Socorro de Almeida, de 50 anos, e Cícera Gonçalves de Araújo, de 42, com renda de aproximadamente R$ 700, o salário mal dá para as despesas básicas. No caso de Cícera, ela recebe R$ 620 para o sustento dela e de três filhos – já é, porém, enquadrada como pobre pelo governo, pois a renda por pessoa da família é de R$ 206. "Dá para pagar o aluguel e o arroz e feijão das crianças", diz. Maria do Socorro concorda. "Eu não tenho filho pequeno e moro em casa própria. Mas o custo de vida aumentou muito e o salário nosso é baixo", diz.

O aposentado Manuel dos Santos trabalha como ambulante para complementar renda (Foto: Gabriela Gasparin/G1)Da doméstica ao Eike

Coordenadora do estudo da SAE, Diana Grosner diz que as informações vêm desmistificar a imagem que a população tem sobre o que é a classe média no Brasil.

“O entendimento comum é que todos que estão acima da empregada doméstica e abaixo do Eike Batista fazem parte da classe média. Mas não é assim”, afirma.

Segundo Diana, o estudo também mostra que a renda média do brasileiro ainda é muito baixa. Mesmo assim, aponta, houve avanços nos últimos anos: em 2001, 27% da população se encaixava entre os pobres e extremamente pobres. Em 2009, essa parcela era de 15%.

A coordenadora diz que a classificação vai servir para balizar novos estudos que vão apontar as expectativas de cada extrato da população em relação ao governo. A partir daí, diz, o governo poderá definir as suas as suas políticas.

No imaginário da sociedade, a classe média é entendida por pessoas que tiveram ascensão social e que possuem bem estar e qualidade de vida"Clemente Ganz Lúcio, diretor-técnico do DieeseImaginário da sociedade

Para o diretor-técnico do Dieese, Clemente Ganz Lúcio, é difícil estabelecer o que é, de fato, a classe média. “No imaginário da sociedade, a classe média é entendida por pessoas que tiveram ascensão social e que possuem bem estar e qualidade de vida que recepcionam tudo aquilo que a sociedade desenvolveu”, avalia.

Dentro desse “imaginário”, o professor cita itens como escola de qualidade, saúde, sistema de transporte adequado e moradia. “Se é um rico, tem muito mais que tudo isso. Se é um pobre, é alguém que não teve isso”, avalia.

O próprio Dieese estima, mensalmente, o valor do salário mínimo necessário para suprir as despesas de trabalhador e sua família com alimentação, moradia, saúde, educação, vestuário, higiene, transporte, lazer e previdência, levando em conta o estabelecido na Constituição. De acordo com a última pesquisa do departamento, em abril deste ano o salário mínimo deveria ser de R$ 2.329,35 (levando em conta o maior custo para o conjunto de itens básicos que, em abril, foi verificado em São Paulo).

De acordo com Lúcio, a pesquisa leva em conta uma família de quatro pessoas, o que daria, dividido em quatro pessoas, uma renda de R$ 582 para cada um. “Mas isso é o mínimo, não é a média”, ressalva.

No estudo, a SAE considera como "supérfluos" itens de despesa como plano ou seguro de saúde, cursos superiores, consulta e tratamentos médicos, hospitalização, serviços de cirurgia, artigos escolares e telefone fixo. Classificados em "essenciais" estão itens como roupas, remédios, aluguel, transporte urbano, artigos de limpeza, energia, alimentação, água e esgoto e eletrodomésticos, entre outros.

Na opinião de Lúcio, com relação à divisão de classes da SAE, é preciso entender a necessidade da criação dessas classificações por parte do governo. Um dos exemplos citados por ele que justificaria a separação, por exemplo, é ter o recorte para a construção de políticas públicas.
Para Braz, da FGV, contudo, medidas estatísticas servem para mostrar de que maneira a renda da sociedade brasileira tem evoluído ao longo do tempo. “Essas estatísticas refletem médias. Isso não quer dizer que com R$ 290 você vai pertencer à classe media em qualquer parte do país, pois nem representa hoje metade do salário mínimo nacional.”

Braz também afirma ser difícil definir o que é, de fato, a classe média. “É uma questão social que muda muito com o tempo (...). Se você vai a uma cidade superpobre do Nordeste e ganha R$ 300, você pode ser rico em relação aos seus vizinhos”, avalia.