terça-feira, 22 de maio de 2012

Sem direção clara, juventude egípcia busca se reencontrar na revolução

À véspera das eleições presidenciais, clima entre jovens é de desânimo. Egito pós-Mubarak vota na quarta e na quinta para eleger presidente. Era para eles terem sido as grandes estrelas da revolução.

Com smartphones nas mãos e uma conexão de 24 horas às redes sociais, não foram poucos os que chamaram seus métodos na derrubada do ditador egípcio Hosni Mubarak, havia 30 anos no poder, de uma moderna “revolução 2.0”. Mas agora, passado pouco mais de um ano do inicio da “Primavera Árabe”, está esquecida a juventude digital que parece ter inventado uma nova forma de fazer politica. Espalhada em diferentes grupos e adotando uma ampla gama de ideologias, a chamada “juventude do Twitter” continua, de uma forma ou de outra, presente na cena politica. Mas um retorno destes jovens à direção das manifestações de massa, assim como a perspectiva de uma sociedade mais simpática aos seus anseios, parece, por enquanto, longe de se realizar.

 Juventude independente Às vésperas das primeiras eleições presidenciais "mais ou menos" democráticas da história do Egito, o clima entre os jovens, em linhas gerais, é de desânimo. Boa parte deles, como Saleh Farky, que dormiu todas as noites na Praça Tahrir durante a derrubada de Mubarak, tem pouca esperança no processo institucional.

“As eleições estão descoladas das nossas reivindicações”, alega o ativista. "Elas estão ocorrendo sob a tutela de um regime militar em meio a um estado de emergência. Não é por acaso que nenhum destes candidatos represente, de fato, o sentimento da praça.” Saleh, de 25 anos, representa de forma fiel os jovens de classe média que se movimentaram para derrubar o regime. Seu apoio incondicional ao ativismo, inclusive, acabou por lhe custar o emprego, onde foi acusado por seu chefe de prestar atenção demais à revolução e de menos ao trabalho. Praticamente apolítico até o inicio da queda de Mubarak, boa parte de sua formação política vem de espaços como Twitter e Facebook, por onde conhece a linha de ação dos diferentes grupos e as atividades antirregime da semana.

Manifestante com o rosto pintado nas cores da bandeira do Egito nesta quarta-feira (25) na Praça Tahrir, no Egito (Foto: AP) Assim como a maioria de seus amigos, o envolvimento de Saleh com a politica, no seu sentido mais estrito, parece terminar por aí. Apesar de estar presente em praticamente todas as manifestações de rua, o jovem militante não integra nenhuma organização de juventude ou qualquer partido politico. “Participo sempre das atividades revolucionárias e tenho respeito pelos grupos pró-revolução, mas nunca pensei em me juntar a eles”, afirma. Uma certa suspeita em torno de grupos políticos parece incomodar o ativista. "Seria estranho fazer parte de um coletivo com o qual não concordo 100% com suas ideias”, reflete o militante.

Grupos ou redes?

Se por um lado boa parte dos jovens egípcios, mesmo os que se encontram na linha de frente da revolução, tem pouco interesse em integrar organizações políticas, as que existem de fato se assemelham mais a redes do que grupos. É o caso do badalado “Movimento 6 de Abril”, um dos agrupamentos políticos tidos como responsáveis pela queda de Mubarak. Supostamente livre de ideologias, o “6 de Abril” e seus diversos rachas supostamente representam uma nova forma de fazer política.

“Não somos nem de esquerda, nem de direita”, afirma Abdallah Sadaui, um dos dirigentes do movimento. “Nosso grupo tem espaço para todos que querem mudar o Egito, sejam eles nacionalistas, comunistas ou liberais”, diz. A amplitude política do movimento talvez ajude a explicar a ausência de propostas claras da entidade. Desprovido de um projeto ou um plano de ação para além da agitação política contra aos remanescentes da ditadura, o grupo de Abdallah se encontra crescentemente deslocado da cena politica egípcia.

As diferentes posições frente às eleições presidenciais dentro do coletivo, que vão desde o apoio ao candidato islamista moderado, Abdel Fotouh, à defesa do voto nulo, parecem irrelevantes à dinâmica interna do movimento. Dado o caráter fluido da entidade, que age como uma especie de coordenação limitada em momentos de grandes mobilizações, as questões politicas de mais longo prazo parecem quase sem importância para seus dirigentes.

Caminhão da polícia com a inscrição 'não aos julgamentos militares' no Cairo (Foto: Aldo Sauda/G1)


Superestimados Portando bandeiras brancas ou pretas, com o símbolo de um punho fechado em seu centro, é difícil ignorar a presença do 6 de Abril nas manifestações egípcias. Seus lideres, muitas vezes portando coletes fosforescentes não muito diferentes do uniforme dos guardas de trânsito, são talvez o que há de mais organizado nos espaços quase anárquicos, se não caóticos, dos atos de rua no país. Dito isso, a baixa capacidade de mobilização do grupo para questões exclusivamente ligada a temas próprios, como processos criminais contra suas lideranças, revelam a fragilidade do movimento.

 “Praticamente todos os grupos de juventude são superestimados”, afirma o ativista e cineasta Philip Rizk. Veterano das mobilizações de juventude, Rizk, de 30 anos, foi um dos organizadores de uma marcha para Gaza em 2009, que tinha como objetivo romper o bloqueio ao território que ocorria como o então apoio de Cairo. Durante os anos em que o serviço secreto de Mubarak agia de forma impune contra seus opositores, os agentes do ditador decidiram sumir com Rizk por alguns dias. Sequestrado pela policia, o cineasta ficou trancado em uma sala escura, onde foi vedado, foi submetido a tortura e maus tratos. Se não fosse por sua dupla cidadania alemã, provavelmente o cineasta teria desaparecido no sistema kafkiano de prisões egípcias.

“Não estou dizendo que do 6 de Abril não é importante”, diz. "Mas dizer que estas grupos tiveram um papel central na enorme explosão espontânea do povo durante a queda de Mubarak é um enorme erro.” Ao refletir sobre a incapacidade dos movimentos de juventude de se consolidarem politicamente no período pós-Mubarak, Rizk enxerga no que classifica de caráter desideologizado do movimento sua principal fraqueza. “Na época em que tínhamos apenas um objetivo, o de derrubar o ditador, grupos mais amplos faziam sentido. Hoje, não tem como você querer aglutinar em um mesmo local pessoas com perspectivas tão antagônicas. Por exemplo, ao ter de propor um novo rumo a economia, como é possível dar uma resposta coerente se seu grupo agrega neoliberais e socialistas?” 'O Twitter é burguês!'

Um dos responsáveis pelo Mosireen, um badalado coletivo de mídia que reúne a intelectualidade jovem do Egito, Rizk pertence a uma leva de ativistas de classe média alta com formação cultural profundamente ocidentalizada. Assim como todos seus colegas do coletivo, o cineasta é seguido por dezenas de milhares de jovens no Twitter. Apesar do engajamento nas redes sociais, os ativistas do Mosireen se sentem mais que incomodados com a ideia de liderarem uma “revolução digital”. “Isto nunca foi uma revolução do Twitter”, afirma a também ativista do coletivo de mídia, Selma Said. Uma das estrelas digitais do levante, Selma considera a ideia de uma revolução digital algo superficial e elitista. “A grande maioria dos egípcios não tem Twitter nem Facebook, nem muito menos acesso regular a internet”, diz. “Nossa revolução é uma revolução popular, movida pelas demandas por justiça social e dignidade, e não uma revolução de redes sociais.”

Organizadas em campo

Se uma dificuldade de se encontrar na politica parece barrar avanços mais substanciais da juventude, ela tem na radicalização dos espaços sociais sua principal aliada. Parece correto afirmar que nenhum agrupamento predominantemente jovem ficou intocado pela revolução. A radicalização da juventude atingiu praticamente tudo, até mesmo a grande paixão nacional; o futebol. Majoritariamente de rapazes das classes populares de 20 poucos anos, se não menos, a composição social das torcidas organizadas se difere em muito de coletivos como o Mosireen. Jovens pobres e radicais ao extremo no método, os Ultras, forma como são conhecidas as organizadas do país, tornaram-se um dos grandes fenômenos da revolução, formando verdadeiras colunas militares nas batalhas de rua do Cairo.

Torcidas organizadas usam bandeiras do time, do Egito e da Palestina (Foto: Aldo Sauda/G1) Armados com tocheiros coloridos e fogos de artificio, esses grupos, que até pouco tempo apenas se preocupavam com futebol, enfrentam de peito aberto as bombas e balas de espingarda (quando não de fuzil) usadas pela policia e pelo exÉrcito na repressão politica.

Tudo em nome da continuidade da revolução. O radicalismo na forma, porém, caminha em descompasso com o conteúdo. As demandas dos Ultras quase sempre se limitam à libertação de seus companheiros presos ou à luta pelo julgamento de policiais acusados de assassinar torcedores manifestantes. Muito pouco para um grupo cujos integrantes alegam querer alterar radicalmente o status quo. Sumidos dos centros de poder Uma olhada no cenário eleitoral do Egito pós-Mubarak indica de forma cristalina a distância das reivindicações por empoderamento da juventude e a realidade da politica local.

Com exceção do socialista Khaled Ali, um advogado de 40 anos que sequer aparece nas pesquisas eleitorais, praticamente todos os candidatos a presidente possuem cabelos brancos, quando não cabelos pretos muito mal tingidos. Entre os quatro primeiros colocados na corrida, a média de idade é 66, 42 a mais que a média egípcia, que gira em torno dos 24 anos. O novo parlamento nacional, eleito em meio ao furor da revolução, também é um espaço que parece destinado à terceira idade. Não são poucas as imagens divulgadas nas redes sociais de parlamentares velhinhos tirando um cochilo em meio a sessões da casa do povo.

arte conheça candidatos eleições egito (Foto: Editoria de Arte / G1)

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